terça-feira, 14 de abril de 2015

À mercê das demandas e mudanças globais

A agricultura teve seu início ainda na pré-história, quando comunidades de caçadores e coletores perceberam que sementes enterradas davam origem a plantas iguais às originais. O cultivo do solo se desenvolveu por milhares de anos, aumentando significativamente sua produtividade e uso de tecnologias ao longo do tempo. Com o aumento da demanda por matérias-primas na Revolução Industrial, técnicas como o uso de máquinas ao invés de animais foram inventadas para aumentar a colheita. Ademais, não podemos deixar de citar a Revolução Verde, que foi responsável pela implantação das técnicas que são ainda utilizadas na agricultura em larga escala, como o uso de fertilizantes sintéticos, agrotóxicos, sementes híbridas e manipulação genética. Este processo ocorreu em meados do século XX, tendo como principal líder o americano Norman Borlaug, que acabou por ganhar o Nobel da Paz por seus esforços em pesquisas de melhoramento agrícola.
            No entanto, como previu o economista Thomas Malthus no século XIX, o aumento da produção material encontra um limite no esgotamento da capacidade dos ecossistemas, o que tem levado atualmente a um fortalecimento do movimento contracorrente, retomando valores do período pré-Revolução Industrial. Em países de capitalismo avançado já é notável a preferência por um tipo de cultivo diferenciado, indubitavelmente mais sustentável e harmônico com o meio ambiente.
Assim, estas alternativas ao sistema tradicional de produção agrícola vêm sendo buscadas a fim de solucionar alguns dos problemas da sociedade atual: a fome, as mudanças ambientais e a perda da biodiversidade, questões em que as políticas de cultivo da terra tem importância decisiva. A agricultura familiar é uma prática que, frente a essas problemáticas globais, vem recebendo cada vez mais incentivos de órgãos micro-empresariais e políticos, abrangendo conceitos socias, econômicos, ambientais e de conservação biológica.
            Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a agricultura familiar é definida como o meio de organização agrícola, silvicultura, pesca, pastoreio e produção de aquaculturas, que são manejadas e operadas por uma família e predominantemente nas propriedadas familiares. A família e a terra estão unidas e co-evoluem e combinam funções econômicas, ambientais, sociais e culturais. Não há um padrão em termos de tamanho, acesso ao mercado, características do plantio, e, portanto, cada uma apresenta necessidades e sistemas de inovações diferentes.
            As técnicas tradicionais latifundiárias que visam o suprimento em grande escala do mercado, tanto regional quanto internacional, já mostraram serem ineficientes em longo prazo, afetando, a priori, a manutenção dos ciclos naturais, biodiversidade e as relações ecológicas, e em última instância o bem-estar social e econômico. Desse modo, a busca por alternativas de curto e longo prazo vêm se tornando alvo de corporativas a fim de garantir a própria estabilidade no mercado competitivo, assim como a conscientização em relação à questão ambiental.
            No Brasil, a agricultura familiar foi definida por lei em 24 de Julho de 2006. Mesmo sob adversidades como insuficiência de terras e capital, e dificuldades no financiamento, a agricultura familiar responde por cerca de 35% do PIB nacional, e 84% dos estabelecimentos agropecuários do país são familiares, empregando a grande maioria dos trabalhadores agropecuários do país.

Selo da Identificação da Participação da Agricultura Familiar
criado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário,
 que informa ao consumidor se o produto comprado é
 ou não oriundo de atividade de agricultura familiar registrada.
A agricultura familiar é responsável por cerca de 70% dos alimentos produzidos no Brasil. Devido a essa enorme influência e a preocupação com o seu reconhecimento, o Ministério do Desenvolvimento Agrário criou, em 2009, o Selo de Identificação da Participação da Agricultura Familiar (SIPAF), que identifica os produtos de origem majoritária da agricultura familiar, ampliando a visibilidade desse tipo de produção e fortalecendo a identidade social da agricultura familiar junto aos consumidores.

A agricultura familiar é considerada uma prática interna da agroecologia capaz de promover o desenvolvimento sustentável. Em agroecossistemas, a própria biodiversidade realiza uma variedade de serviços que vão além da produção alimentícia, incluindo ciclagem de nutrientes, regulação do micro-clima e processos hidrológicos locais, supressão de organismos indesejáveis e desintoxicação do solo. Em curto e longo prazo, esse tipo de manejo garante continuidade no fornecimento de insumos e geração de riqueza, não apenas para o setor agropecuário, mas para a própria economia do país, o que ajuda a entender a importância estratégica essa forma de produção.


Autores: Aline Maria Lucchetta, Enrico Cerioni Spiropulos Gonçalves e Rodrigo Guedes Hakime. 


Bibliografia utilizada: 

  • ABELE S., FROHBERG K. Subsistence Agriculture in Central and Eastern Europe: How to Break the Vicious Circle? Institut Für Agrarentwicklung ung in Mittel-Und Osteuropa (IAMO), 2003.
  •  ABRAMOVAY, R. Alimentos versus população: está ressurgindo o fantasma malthusiano? Cienc. Cult. vol.62 no.4 São Paulo Oct. 2010
  •  ALTIERI M. A. The ecological role of biodiversity in agroecosystems. Agriculture, Ecosystems and Environment, Vol. 74, p. 19-31, 1999.
  •  BARNABA B. J. E. A Policy Paper on Moving Beyond Subsistence Farming and Investing in Modern Agriculture to Enhance Rural Development in South Sudan. Nyamilepedia, publicado online em 2015 <http://nyamile.com/2015/02/22/a-policy-paper-on-moving-beyond-subsistence-farming-and-investing-in-modern-agriculture-to-enhance-rural-development-in-south-sudan>
  •  FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). Rural and Tribal Woman in Agrobiodiversity Conservation – An Indian case study. India, 2002.
  •  FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS (FAO). The State of Food and Agriculture – Innovation in family farming. Rome, 2014.
  • GLIESSMAN S. R. Agroecology: the Ecology of Sustainable Food Systems. CRC Press, 2006.
  •  HUSSAIN I., RASCHID L., HANJRA M. A., HOEK W. Wastewater use in Agriculture: Review of Impacts and Methodological Issues in Valuing Impacts. Working Paper 37. Colombo, Sri Lanka: International Water Management Institute, 2002.
  •  SIMS J. T., SIMARD R. R., JOERN B. C. Phosphorus Loss in Agriculture Drainage: Historical Perspective and Current Research. Journal of Environment Quality, Vol. 27, p. 277-293, 1998.


Produção de alimentos alternativos ao longo da história

          A história da agricultura no Brasil e no mundo remonta a um período na História humana conhecido por Neolítico. Possuem ambas aspectos comuns embora a Neolitização tenha ocorrido numa configuração mais particular a cada comunidade, isto é, fruto das experiências de vários povos, e menos como fenômeno generalista e homogêneo.
            Esta soma de experiências diversas e complementares proporcionou no entanto, um crescimento inimaginável para as populações originais da nossa espécie. Os rumos da agricultura passaram da subsistência ao estoque, e deste ao excedente. Sucedeu ao excedente de produtos, uma grande e complexa economia baseada nas trocas, no giro de moeda, na riqueza e na centralização das terras, dos alimentos e do capital. Pari passu à centralização, houve a socialização dos agravos ambientais e sociais. Neste momento da história, que já não data de hoje mas sim de 50 anos, a agricultura tradicional que mantinha alguma semelhança com seu aspecto original de subsistência é substituída majoritariamente no pós guerra da Segunda Guerra Mundial, dando lugar à agricultura moderna. Foi este novo sistema de produção das culturas agrícolas o principal responsável pelo cenário de eminente colapso descrito, lançando novo desafio à nossa espécie, que pôs-se mais uma vez pensar em novas soluções, assim como aprendeu a fazer ao domesticar e selecionar as plantas.
fonte desconhecida
            A agricultura alternativa, ou os sistemas alternativos de produção de alimentos têm como eixo principal a segurança alimentar, a geração de renda dos pequenos produtores e a sustentabilidade no uso dos recursos naturais. Embora estes sistemas alternativos devam servir de modelo e incentivo aos grandes proprietários de terra por motivos ambientais e ecológicos, garantindo a preservação dos recursos hídricos e dos solos, bem como dos ecossistemas naturais, seu escopo também alcança o sentido de justiça social no que se refere à segurança alimentar. Ao contrário da agricultura moderna caracterizada pelo mau uso do solo levando ao seu esgotamento, utilização irrefletida e deliberada de tóxicos, pesticidas e maquinaria pesada, a agricultura alternativa, muitas vezes tratada como agroecologia ou ainda, agricultura ecológica quando aliadas ao cunho político e social, prevê diferentes atitudes entendidas harmônica com a natureza. Algumas dessas atitudes são listadas como a independência do uso de agrotóxicos, o manejo sustentável do solo, a integração entre espécies nativas, arbóreas e de interesse econômico resultando nas agroflorestas, e comercialização dos produtos agrícolas garantindo renda familiar.  Dentre os modelos de sistemas alternativos de produção de alimento, podem ser elencadas algumas vertentes, a saber: Agricultura Orgânica ou Biológica, Biodinâmica, Natural, Nassenariana, e a Permacultura. Pode-se dizer que suas diferenças baseiam-se no núcleo principal das práticas, porém com o objetivo e princípios comuns característicos à agroecologia.
Algumas culturas comuns e consórcios são feitos principalmente entre as variedades de plantas frutíferas, batata, mandioca, feijão, milho, tomate, abóbora, café, peixes, aves, bovinos e suínos.         
fonte desconhecida
No âmbito nacional, o país tem dado discretos mas importantes passos na orientação do desenvolvimento rural sustentável, como o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, uma ferramenta de execução dos esforços nacionais. Já em outros níveis, como na cidade de Ribeirão Preto, conta-se hoje com significantes iniciativas pautadas na lógica agroecológica que vão de encontro ao sistema de produção local mais expressivo: o marcante e pesado (ambiental e socialmente dizendo) agronegócio sucroalcooleiro. Entre estas iniciativas, as desenvolvidas pelo Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) merecem destaque, como a empreendida pelo Assentamento Mário Lago. Neste assentamento, a agroecologia torna-se a espinha dorsal da produção de alimentos juntamente com a promoção de técnicas ambientais adequadas e sustentáveis do ponto de vista ecológico.


Autores: Caio César Damasceno Monção, Florença Freitas Silvério, Fernanda E. Arab e Loyná  Eua Flores e Paez 


Bibliografia utilizada: 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Aspectos sociais da produção de açúcar e álcool

A cana-de-açúcar é uma monocotiledônea pertencente ao gênero Saccharum e há pelo menos seis espécies existentes do gênero, porém o mais comumente cultivado é um híbrido multiespecífico que recebe o nome do Saccharum spp. Ele pertence à  Família Poaceae, a mesma do milho, sorgo e arroz. São plantas de metabolismo C4, muito influenciadas pelo clima e pelo manejo, visto que na plantação comercial a propagação é assexuada e feita pelo uso do colmo (caule) cortado com cerca de 30 centímetros. As espécies de cana-de-açúcar são originárias do sudeste asiático e são a principal matéria prima para a produção de açúcar e álcool. A espécie que deu origem ao cultivo extensivo fora da Ásia é conhecido por Saccharum officinarum.
Não se pode afirmar quando o consumo de cana-de-açúcar começou, mas provavelmente foi na Índia e levado por soldados do exército de Alexandre Magno na conquista da Índia Oriental, onde os nativos bebiam o suco de cana fermentado, o chamando de “mel sem abelhas”. Relata-se também que em 600 d.C. na Pérsia começou-se a processar a cana de forma rudimentar para conseguir um tipo de açúcar que poderia ser transportado sem fermentar, que posteriormente foi refinado pelo Islã.
Já o cultivo da cana-de-açúcar e a exploração do trabalho escravo datam do século XIV, da ilha de Chipre, Creta e norte da África. A entrada do açúcar na Península Ibérica estimulou o ressurgimento da escravidão e estes passaram seus métodos de cultura para as suas colônias. Isso ocorreu devido à expansão portuguesa pela costa ocidental da África à procura de ouro e especiarias, originando o tráfico de escravos africanos. Para romper com o monopólio da produção de açúcar exercido pelo Oriente Médio, os portugueses encontraram no Brasil Colônia uma alternativa para ingressarem definitivamente nesse mercado e estimularem seu crescimento econômico. O clima tropical e as boas condições do solo pareciam ideais para o cultivo da cana-de-açúcar, planta originária do Pacífico Sul e da Índia. Ainda hoje a cana-de-açúcar é muito importante pra economia brasileira, não só para a produção de açúcar como a de álcool, o que coloca o Brasil no mercado energético mundial, e movimenta cerca de R$40 bilhões ao ano.
 Com o aumento do comércio de açúcar no século XIV, relacionado ao consumo de chocolate, café e chá, o comércio pelo Mar Mediterrâneo com intermédio de árabes e turcos ficou extremamente caro, o que tornou o açúcar um artigo de luxo na Europa. Depois da queda de Constantinopla ficou ainda mais difícil o comércio com o Oriente, o que incentivou as navegações portuguesas, que o lhe deram o monopólio do comércio mundial. O passo seguinte foi produzir aquilo que comercializava em suas colônias, que se inicia no Brasil por volta de 1515 e 1520 com a chegada de Martim Afonso de Souza na Vila de São Vicente, onde foi instalado o primeiro engenho de açúcar brasileiro, que utilizava mão de obra da população nativa, mas com a expansão das lavouras houve a transição para o trabalho africano. Portanto, o Brasil colônia manteve o açúcar como principal atividade econômica, o que influenciou as distinções jurídicas baseados nas hierarquias e raças. Sua importância econômica se mostra no montante de suas importações, como no caso da Inglaterra que em apenas 100 anos, entre 1700 e 1800, deixou de consumir 2 quilos/habitante/ano para 9 quilos/habitante/ano, totalizando 8 toneladas. Tornando o Brasil, no início do século XVII, o maior produtor de açúcar do mundo chegando a produzir 20.400 toneladas, depois entrando em queda com a entrada das colônias espanholas e holandesas como produtoras de cana-de-açúcar.
Hoje o setor sucroalcooleiro no Brasil é considerado de grande importância econômica, com uma participação no PIB de 35% com mais de R$500 bilhões, gerando cerca de 14% dos empregos no país. Por produzir esses empregos também ajuda a diminuir os fluxos migratórios para os municípios, mesmo que gere discussões, pois os empregos ficam condicionados à sazonalidade do ciclo da cana. Hoje as industrias sucroalcooleiras se comprometeram a minimizar esses efeitos, como também as diferenças sociais e a reduzir os impactos ambientais (poluição do ar, degradação do solo e dos rios, etc.). Suas medidas são contraditórias e geram discussões, como por exemplo a necessidade de não queimar a palha da cana para diminuir a poluição do ar,o que gera a necessidade da mecanização da colheita e que acaba dispensando milhares de trabalhadores braçais que tem dificuldade de ser absorvidos em outras áreas do mercado de trabalho. Além do que há alguns aspectos que afetam gravemente o trabalhador além da sazonalidade: a informalidade, a oscilação de salários e a redução dos mesmos com o enfraquecimento dos sindicatos, a exploração dos trabalhadores com jornadas de trabalho excessivas, as condições severas do trabalho no campo, entre outros.

Por sua grande importância econômica, esse setor deve ser tomado com cuidado, pois podem abalar todo o país economicamente. Problemas nas safras, hoje, não afetam apenas o preço do açúcar mas principalmente dos combustíveis, já que grande parte do álcool hoje comercializado no país vem da cana-de-açúcar, e causam grande impacto na população e podem afetar não somente o bolso do brasileiro como o estilo de vida da população de classes mais baixas.


Autores: Aline Campelo Mendes, Ana Laura Furlan Blanco


Bibliografia utilizada:
  • BRAIBANTE, M.E.F.; PAZINATO, M.S.; ROCHA, T.R.; FRIEDRICH, L.S.; NARDY, F.C. A cana-de-açucar no Brasil sob um olhar químico e histórico: uma abordagem interdisciplinar. Química nova na Escola, v.35, n.1, p 3-10, 2013.
  • BRAGATO, I. R.; SIQUEIRA, E.S.; GRAZIANO, G.R; SPERS, E.S. Produção de açúcar e álcool vs. responsabilidade social corporativa: as ações desenvolvidas pelas usinas de cana-de-açúcar frente às externalidades negativas. Gest. Prod., São Carlos, v. 15, n. 1, p. 89-100, 2008.
  • CARRETTA, D.B. Açúcar: seus efeitos sobre a sociedade sacarose dependente. 2006. 41f. Dissertação (Especialização em Saúde Coletiva) – Departamento de Odontologia - Universidade de Brasília, Faculdade de Ciências da Saúde. Nova Xavantiva, Mato Grosso. 2006.
  • MAGRO, F. J.; TAKAO, G.; CAMARGO, P. E.; TAKAMATSU, S. Y. Biometria em cana-de-açúcar. Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”, Universidade de São Paulo. 2011

Impactos ambientais da produção de açúcar e álcool

A cana-de-açúcar foi a primeira cultura introduzida no Brasil, há aproximadamente quatrocentos anos, visando a produção do açúcar, que na época tinha alto valor de mercado. No entanto, com a problemática da poluição pelos combustíveis fósseis e com a implantação do programa Pró-Alcool, em 1975, seu uso para a produção de etanol ganhou imensa força no Brasil. Como os passos iniciais para a produção de álcool e açúcar são basicamente os mesmos, os problemas ambientais em sua cadeia apenas se agravaram.
Por volta de 2010, o Brasil era responsável por cerca de 40% da produção de álcool mundial, da qual 80% era consumida no mercado interno. Em relação ao açúcar, o país é o maior produtor e exportador global, com cerca de 20% da produção e 40% das vendas no mercado internacional.
Monocultura extensiva da cana de açúcar: um grande problema ambiental.
http://www.ecodesenvolvimento.org/posts/2012/agosto/exportacoes-de-etanol-em-julho-tem-melhor/popup_impressao

Segundo a pesquisadora Maiara de Melo, “... desde o início da cultura canavieira se observam problemas como o desmatamento e o desgaste do solo. É um modelo econômico que nega e explora a natureza”. De fato, ambos os problemas apresentados mostram-se verdadeiros: o desmatamento ocorre na busca por mais e maiores áreas para o plantio da cana-de-açúcar, altamente lucrativo devido à alta demanda tanto de açúcar quanto de álcool; o desgaste do solo acontece associado ao uso de herbicidas, à utilização de queimadas, com o intuito de facilitar a colheita, e ao cultivo da cana em monoculturas, onde o solo torna-se infértil pelo esgotamento de seus nutrientes. 
 De forma geral, o sistema sucroalcooleiro possui três etapas: a agrícola, que consiste no processamento da matéria-prima, envolvendo fases de preparo do solo, plantio, tratos culturais, colheita e transporte até a usina; a industrial, a qual compreende a recepção da cana na usina, a lavagem, o tratamento do caldo e a produção de açúcar e álcool; e a de geração de energia, em que a energia produzida pelo processamento do bagaço é reaproveitada como suprimento energético da própria indústria.

Queimadas: um problema não só ambiental, mas de saúde pública.
http://pedlowski.blogspot.com.br/2011/06/
monocultura-da-cana-onde-ha-fumaca-tem.html
Nessas fases pode-se observar alto gasto de água (cerca de 1,4L para produzir 1L de álcool, segundo Ballester) e emissão de poluentes atmosféricos pela utilização de queimadas, caldeiras tecnologicamente atrasadas, torres de destilação e dornas de fermentação. Além disso, há formação de fuligem pelas queimadas, consumo de grandes quantidades de insumos químicos agressivos ao meio ambiente (e.g. óleo diesel, soda cáustica, óleos lubrificantes e graxas não biodegradáveis), mau gerenciamento dos resíduos industriais, falta de reservas florestais próximas às regiões de cultivo e uso de vinhaça como fertilizante, a qual é rica em nitrogênio, podendo causar a eutrofização de rios e lagos, quando em excesso.
O processo de produção do açúcar e do álcool desde a recepção da cana na usina.
http://www.tereosinternacional.com.br/show.aspx?idCanal=tYwYSsZvGxpbi5l/hf3gmA==

Processamento da cana-de açúcar: do canavial até as etapas finais do açúcar, etanol e energia.
http://pt.slideshare.net/DanianaSantos/t39-tcc-o-efeito-da-escala-em-processamento-de-cana-de-acar-estudo-de-casowilson-lucena

Visando a redução do impacto, existe uma lei (Nº 11.241/2002) que proíbe as queimadas, porém essa mudança deve acontecer gradativamente até 2017. Junto a isso, existem políticas de zoneamento agroecológico, indicando possíveis áreas para expansão, e de ordenamento do uso do solo, buscando seu uso sustentável. Outras medidas como o uso de tecnologias menos poluentes, a introdução, em larga escala, de controle biológico e a aplicação de adubos e fertilizantes orgânicos, podem ser tomadas no intuito de proteger o meio ambiente.
A cana-de-açúcar não é apenas mais um produto agrícola, mas uma importante fonte de biomassa energética. O grande desafio do Brasil agora é reduzir os impactos ambientais da atividade sucroalcooleira e, ao mesmo tempo, aumentar a produtividade, contribuindo para o crescimento econômico e proporcionando oferta de trabalho e geração de renda no país.

Autores: Marino da Motta Nanzer, Rafael Farina, Silvia Sayuri Mandai e Vanessa Thomé.


Bibliografia utilizada:

            

terça-feira, 24 de março de 2015

Cultivo e Comercialização de Vinho no Brasil e no Mundo

Não se sabe ao certo quando teve início a produção do vinho. Arqueologistas acreditam que o acúmulo de sementes de uva encontradas em escavações na Turquia, Síria e Rússia, e que datam cerca de 8000 a.C., possam indicar o suposto início do cultivo e produção da uva e do vinho. Segundo a bíblia, Noé teria plantado uma videira logo após o grande dilúvio, a qual posteriormente teria usado para produzir o vinho e se embriagar. Além disso, registros da celebração e da vinificação foram encontradas em pinturas expostas em túmulos egípcios que datam 1000 a 3000 a.C.. Nessas pinturas, processos como a colheita, a prensagem e a fermentação eram retratados com detalhes. Através dessas pinturas foi possível inferir que o vinho naquela época era limitado aos ricos, que o bebiam em taças e em festividades.
Os vinhedos, assim como os vinhos, também eram oferecidos aos deuses. Nesse contexto, destacam-se a mitologia grega e romana. Na mitologia grega, o deus do vinho Dionísio, filho de Zeus e Sémele, teve sua imagem atribuída à embriaguez e à fertilidade, sendo o vinho bebido com a intenção de afastar as preocupações. Para os romanos, o deus do vinho Baco se transforma em um leão, que luta e devora os gigantes que escalam o céu e, assim como Dionísio, tem sua imagem associada à embriaguez.
http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2011/279/imagens
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A uva, matéria prima do vinho, é fruto da videira ou vinha (Vitis sp.). Existem diversas variedades de uva, denominadas castas ou cepas. Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay são uma das mais utilizadas na produção de vinho e provêm da Vitis vinifera, planta de origem europeia, que é capaz de acumular açúcar na proporção de ⅓ de seu volume.
O Brasil ocupa a 15ª posição no Ranking mundial de produção de vinhos e, de acordo com o IBRAVIN (Instituto Brasileiro do Vinho), apresenta seis regiões produtoras principais: o Planalto Catarinense (São Joaquim e Bom Retiro, SC), os Campos de Cima da Serra (fronteira entre SC e RS), a Serra Gaúcha (Bento Gonçalves), a Campanha Gaúcha e Serra do Sudeste (fronteira do Brasil com o Uruguai – Santana do Livramento) e o Vale do São Francisco (Petrolina - PE, Juazeiro - BA, Casa Nova - BA).            O cultivo da uva envolve três períodos: repouso, crescimento, elaboração. No primeiro a planta perde as folhas e entra em latência (Abril a Julho). O segundo é caracterizado pelo brotamento de folhas e floração (Agosto a Dezembro). No terceiro período há a produção de frutos e a colheita dos mesmos (Dezembro a Março). As uvas, então, passam pelo processo de fermentação, em que as moléculas de carboidrato, o açúcar, será transformado em álcool, gás carbônico e energia por meio do microorganismo Saccharomyces sp. Depois, o produto fermentado ainda pode passar pelos processos de estabilização, clarificação e filtração, engarrafamento e envelhecimento da garrafa.          
            Os principais países produtores de vinho se localizam entre as latitudes 30º e 50º e são Itália (1º),  França (2º), Espanha (3º) e Estados Unidos (4º). Outros países que se destacam na vitinicultura são Chile (10º) e Portugal (11º).
A primeira videira plantada no Brasil foi em 1532 por Brás Cubas na cidade de São Paulo, precisamente no atual bairro de Tatuapé. Com a vinda de italianos em 1875, iniciou-se a produção familiar de vinhos, muitas das quais ainda estão presentes  no mercado nacional. Foi só em 1970 que multinacionais se instalaram no Brasil, trazendo tecnologia, variedades de mudas e capital, expandindo a produção e a comercialização do vinho.
O Rio Grande do Sul ocupa o lugar de maior produtor brasileiro desde 1980, primeiro ano datado pela Embrapa, e em 2010 chegou a produzir cerca de 310 milhões de litros de vinho, um pouco a mais do que o dobro produzido em 1980. O último dado fornecido pela Embrapa sobre a produção do vinho no Brasil indica que a produção anual foi por volta de 376 milhões de litros, sendo que 358 milhões são provenientes do Rio Grande do Sul.

Em 2014, a Vinícula Miolo, que se localiza no Vale dos Vinhedos comercializou 100 mil caixas de vinho de janeiro a abril, o que levou ao faturamento de US$ 1,8 milhão e a expectativa para o ano era de, no mínimo, US$ 3 milhões, sendo que o principal comprador da Vinícula nesse ano foi a Bélgica. Além disso, houve incremento nas vendas na Alemanha e no Japão. Ainda em 2014, as demais vinículas do Wines of Brasil exportaram US$ 5,75 milhões nos quatro primeiros meses do ano, que já superava a meta esperada (US$ 5,5 milhões). A gerente do Wines of Brasil acredita que a Copa  tenha influenciado o aumento da exportação dos vinhos brasileiros.

Autores: Juliana Toshie Takata, Maiara Albanez Pereira, Rafaella Eduarda Volpi, Renan Lopes Rodrigues.

Bibliografia utilizada:


História da Fabricação de Cerveja

É difícil determinar a data exata em que a primeira cerveja foi produzida, mas acredita-se que tenha sido há mais de 10.000 anos, época em que o homem tomou conhecimento do processo de fermentação.  Especula-se que a descoberta da cerveja tenha ocorrido por acidente, possivelmente fruto da fermentação não induzida de algum cereal.
A primeira evidência arqueológica referente à produção de cerveja vem da Suméria, por volta de 6.000 a.C. Tratam-se de inscrições feitas numa pedra, relativas a um cereal que se utilizava em algo similar à produção de cerveja.  Os sumérios teriam percebido que a massa do pão, quando molhada, fermentava e, assim, imagina-se o surgimento de uma forma de cerveja primitiva, o “pão líquido”.
Na Antiguidade, a produção de cerveja era uma atividade caseira devido à natureza das matérias-primas utilizadas (grãos de cereais e leveduras), em que as mulheres eram encarregadas, já que elas também faziam os pães.  Durante o período babilônico, havia cerca de vinte diferentes tipos de cerveja, com base em diferentes combinações de plantas aromáticas  e no maior ou menor emprego de mel, cevada ou trigo. Hamurabi, rei da Babilônia, introduziu em seu famoso Código várias regras relacionadas à cerveja, como uma lei que decretava pena de morte a quem servisse cerveja de má qualidade.
Há registros de produção e consumo de cerveja também no Egito, Grécia e Roma. Na Idade Média, a cerveja ganhou um sabor mais parecido com o atual. Os gauleses passaram a fabricá-la com malte e os monges descobriram o lúpulo (Humulus lupulus, uma liana europeia) como conservante natural, utilizado também para dar amargor e aroma à cerveja.

A partir do século XIX a ciência e a técnica tornaram-se fundamentais para o produtor de cerveja. Em 1876, o cientista francês Louis Pasteur descobriu micro-organismos responsáveis pela deterioração do produto e que estes poderiam estar no ar, na água e nos equipamentos, o que fez com que limpeza e higiene se tornassem fundamentais dentro de uma cervejaria. Outros avanços ocorreram, como a separação de duas espécies de leveduras com metabolismos diferentes, feita por Emil Christian Hansen, originando as famílias Lager e Ale. Como a levedura influencia no sabor, a descoberta permitiu a padronização do sabor e qualidade da cerveja. 
No Brasil, a cerveja demorou a chegar, barrada pelos portugueses, que temiam perder o mercado de seus vinhos. Em 1808, a bebida foi trazida pela Família Real. A cerveja consumida pelos brasileiros era a gengibirra, produzida com gengibre, farinha de milho, casca de limão e água. Já a caramuru era uma mistura de milho, gengibre, açúcar mascavo e água, e fermentava durante uma semana.
Atualmente, os ingredientes para a fabricação de cerveja são água, lúpulo, malte (que tem origem na germinação de cereais sob condições ambientais controladas) e possivelmente adjuntos, como milho, trigo, cevada não maltada, arroz, aveia, açúcar e xaropes. No Brasil, o milho é um importante ingrediente da bebida e pode estar presente em, aproximadamente, até metade de sua composição. A cerveja mais consumida no país é a Pilsen, que se encaixa no tipo Lager. Trata-se de uma cerveja clara, leve e refrescante. Entretanto, o segmento de cervejas Premium produzido por cervejarias artesanais, as microcervejarias, e também por grandes empresas de marcas importadas vêm crescendo no país. Os custos fixos das cervejarias brasileiras são altos, visto que há investimentos em projetos, equipamentos e empregados. Porém, o diferencial da indústria cervejeira no Brasil é a forma como o produto é distribuído: a rapidez e o seu alcance.
                 Fonte: http://media-1.web.britannica.com/eb-media/69/74269-004-ABB99B13.jpg
Cada região do mundo segue alguns parâmetros para produção de cerveja, o que define as escolas cervejeiras. A escola alemã é regida pela Lei da Pureza, de 1516, que determina o que pode ser usado como ingredientes da bebida: apenas malte, cevada, água e lúpulo, além das leveduras, que não eram conhecidas na época. A cerveja tem qualidade técnica, mas sem espaço para criatividade e inovação. Já a escola inglesa produz cervejas mais amargas e secas. A escola belga, por sua vez, é composta por vários estilos, produzindo cervejas originais e complexas, podendo-se adicionar semente de coentro, casca de laranja e canela, entre outros. Recentemente, vêm se estabelecendo uma escola estadunidense, que é caracterizada pela nova interpretação de estilos de cerveja já existentes.
No Brasil, têm crescido o mercado de cervejas artesanais. A origem da cerveja artesanal é alemã e, de acordo com a tradição germânica, tem ingredientes limitados. No entanto, alguma cervejarias rejeitam a lei germânica e seguem a escola belga, mais elástica, e incorporam ingredientes como casca de laranja, pimenta-da-jamaica, alfarroba, rapadura e mandioca em busca de uma identidade nacional, aromas e sabores diferentes.     


Autores: Laura Braun Cano, Luiza Dias Ferreira Leite Mendonça, Olivia Ambrosini e Wendy Ishimoto


Bibliografia utilizada:

terça-feira, 17 de março de 2015

As palmeiras nativas e suas fibras

Todos os produtos hoje utilizados e produzidos pelo ser humano possuem como matéria-prima produtos naturais. Estes produtos podem ser de origem animal, mineral ou vegetal por exemplo. Em todas as épocas e culturas, as fibras vegetais foram úteis em trançados, fixação, vestuários, adornos, cordoaria, alimentos e outros usos econômicos, culturais e arquitetônicos, fundamentais ao desenvolvimento das relações sociais e econômicas internas e externas entre povos e culturas.
O tecido vegetal esclerênquima é formado por dois tipos de células: os esclereídes, ou células curtas, e as fibras esclerenquimáticas, células alongadas, resistentes e flexíveis que são o principal componente das fibras vegetais. Atualmente, as fibras vegetais possuem diversas aplicações industriais e comerciais em muitas atividades cotidianas fundamentais à economia, saúde humana e animal, construção civil, vestuário, cosméticos e indústria automobilística.

As fibras vegetais são formadas por diversos componentes químicos constituídos a base de Hidrogênio (H) e Carbono (C), sendo os principais a celulose, a hemicelulose e a lignina. De acordo com a sua origem as fibras vegetais podem ser agrupadas em fibras de semente, raiz, caule, folhas e fruto do coco.
As palmeiras são importantes fornecedores de fibras. Dá-se o nome de palmeira às árvores pertencentes á família Arecaceae. No Brasil, ocorrem 390 palmeiras nativas, sendo a maioria originaria da região amazônica, que conta com 290 espécies.  Das palmeiras podem ser extraídos diversos produtos, que são importantes principalmente em comunidades tradicionais. Dessa forma, estas plantas apresentam importância no mercado local, nacional e internacional, seja na produção de palmito, polpa, fibras ou óleos.
Atualmente diferentes tecnologias recebem investimentos que objetivam a elaboração de materiais sintéticos que imitam as fibras naturais, mas especialmente que otimizam o uso e a aplicação destas fibras, dado a larga utilidade e qualidade como material.
 Buriti
 O buriti foi classificado pelos naturalistas estrangeiros como umas das árvores da vida, pois dele se aproveita tudo. As fibras, retiradas das folhas do buriti, são bastante utilizadas no artesanato nordestino.  O talo mais duro serve para fazer cestas e cabos de vassoura. As tiras mais grossas são utilizadas na fabricação de tapetes e esteiras e as mais finas são usadas em para confeccionar bijuterias, chapéus, bolsas, toalhas de mesa, brinquedos, etc.
 Coco
As características da fibra, como coloração uniforme, elasticidade, durabilidade e resistência à tração e à umidade, oferecem muitas possibilidades de utilização como matéria-prima natural para a indústria na fabricação de xaxins, esteiras, cordas, tapetes, escovas, vassouras. A fibra de coco também pode auxilia na área agrícola como matéria-prima para controle de erosão e repovoamento da vegetação de áreas degradas. Por sua lenta decomposição, protege o solo diminuindo a evaporação, aumentando a retenção e a atividade microbiana do solo. Tem-se também utilizado esta fibra como reforço em matrizes poliméricas, por exemplo, em compósitos com plásticos, apresentando vantagens quando comparada a outros materiais sintéticos, com relação a biodegradabilidade e a reciclabilidade.

 Jarina
O marfim-vegetal ou jarina (Phytelephas macrocarpa) é uma palmeira de crescimento lento com belas frondes que brotam diretamente do chão. Logo abaixo das folhas nascem grandes aglomerados fibrosos que consistem em frutos lenhosos bem compactos. As folhas (palhas) são utilizadas na cobertura de casas por populações locais e as fibras para confecção de cordas. Contudo, a parte mais usada da planta é a semente sendo a mais nobre da Amazônia para uso em biojóias. O marfim vegetal é uma alternativa ecológica e prática, por se parecer com o de origem animal. 

 Piassava
A palmeira Attalea funifera Martius, conhecida por piaçava ou piaçaba, é espécie nativa e endêmica do sul do Estado da Bahia. Produtora de fibra longa, resistente, rígida, lisa, de textura impermeável e de alta flexibilidade, essa palmeira se desenvolve bem em solos de baixa fertilidade e com características físicas inadequadas para a exploração econômica de muitos cultivos.  A importância econômica da piaçaveira está na extração das suas fibras industriais, destacando-se a fabricação de vassouras, enchimento nos assentos de carros, cordoaria e escovões.  

Autores: Caio César Damasceno Monção, Florença Freitas Silvério, Fernanda E. Arab, Loyná  Eua Flores e Paez.

Bibliografia utilizada: