terça-feira, 26 de maio de 2015

O sabor da expansão marítima

Fonte desconhecida
Açafrão, baunilha, pimenta, orégano, canela, gengibre. Todas estas plantas são conhecidas na gastronomia como imprescindíveis, especialmente na hora de temperar. Especiarias são temperos e condimentos de origem vegetal que possuem sabor e aroma acentuados devido à presença de óleos essenciais - compostos hidrofóbicos e voláteis obtidos através de métodos de separação, podendo conter centenas de substâncias químicas. As especiarias possuem grande utilização na culinária, na preparação de óleos, cosméticos, incensos e medicamentos. Existem espécies consideradas como especiarias em todos os continentes, mas a partir do início das Cruzadas, os europeus desenvolveram um gosto pelo consumo de especiarias vindas da Ásia, o que levou a várias estratégias que permitiram o comércio destes produtos.

O comércio de especiarias existe desde a antiguidade, e teve um importante destaque no surgimento das Grandes Navegações, durante os séculos XV e XVI. A partir das Cruzadas na Idade Média houve um grande interesse no comércio de especiarias na Europa, devido ao seu uso na culinária e na medicina. Desenvolveu-se, em particular, o consumo de especiarias oriundas das regiões tropicais, principalmente do sul e sudeste asiático, uma vez que o clima da Europa não permitia o cultivo de muitas variedades. As mais procuradas nesta época eram a pimenta-do-reino, o cravo, a canela e a noz-moscada. Devido à dificuldade em obtê-las, as especiarias passaram a ser consideradas produtos de luxo. Era comum o seu uso para pagamento de impostos, dívidas, acordos e subornos.
Com o surgimento e crescimento da burguesia houve um aumento da demanda desses produtos. Para atender a essa demanda, ampliou-se o comércio entre o Ocidente e o Oriente através de várias rotas terrestres e marítimas, que uniam não apenas a Europa internamente, mas esta e a China e a Índia. No século XV, os comerciantes de Gênova e Veneza detinham o monopólio do comércio destas especiarias. Estas eram então levadas para Europa através da rota do Mar Mediterrâneo, dominada pelos comerciantes italianos. As especiarias eram compradas secas e tinham longa durabilidade e resistência a pragas, portanto suportavam meses de viagem sem perder sua qualidade aromática e medicinal.
Após a Tomada de Constantinopla, em 1453, o comércio de especiarias ficou mais difícil, uma vez que a rota dos mercadores cristãos foi bloqueada a partir do domínio turco. Foi nessa época que se iniciou o declínio do monopólio italiano. Para resolver o problema, os países ibéricos como Portugal e Espanha, procuraram uma rota alternativa para chegar às especiarias. Portugal explorou a rota oriental, contornando a África, e obteve muito sucesso, se tornando uma potência econômica da época. A Espanha, por sua vez, explorou a rota ocidental, e acabou chegando à América. Com a colonização do território americano, os europeus introduziram nessas regiões o plantio de especiarias, barateando o custo. Desta forma, o comércio de especiarias pode ser considerado como um dos grandes propulsores da expansão marítima e das grandes navegações.

Atualmente, as especiarias são ainda amplamente utilizadas na culinária como temperos, e nas últimas décadas descobriu-se que estes produtos podem conter propriedades medicinais, por exemplo, cumprindo a função de antibióticos, como é o caso do coentro, do cominho e do anis. Outra função que é atribuída a várias especiarias é a propriedade antioxidante, bem como a prevenção ao câncer no caso de certas espécies.  


Autores: Aline Maria Lucchetta, Enrico Cerioni Spiropulos Gonçalves e Rodrigo Guedes Hakime


Bibliografia utilizada:

·         Herbal Medicine: Biomolecular and Clinical Aspects. Caefer CM, Milner JA. 2nd Edition. Chapter 17: Herbs and Spices in Cancer Prevention and Treatment. 2011.
·         Bracht F, Conceição GC, Santos CFM. A América conquista o mundo: uma história da disseminação das especiarias americanas a partir das viagens marítimas do século XVI. Revista Brasileira de Pesquisa em Alimentos. 2011.
·         Singh G, Kapoor IPS, Pandey SK, Singh UK, Singh RK. Studies on essential oils: Part 10; Antibacterial activity of volatile oils of some spices. Phytotherapy Research. 2002.

Óleos essenciais, Cleópatra e a história de um assassino

Fonte: Google Imagens
Os óleos essenciais constituem os elementos voláteis contidos em vários órgãos das plantas e assim são denominados devido à natureza lipofílica que apresentam, sendo, entretanto, quimicamente diferentes da composição glicerídica dos verdadeiros óleos e gorduras. Estão associados a várias funções necessárias à sobrevivência do vegetal em seu ecossistema, exercendo papel fundamental na defesa contra microorganismos e predadores, e também na atração de insetos e outros agentes fecundadores. Em sua maioria, são constituídos de substâncias terpênicas e eventualmente de fenilpropanóides, acrescidos de moléculas menores, como álcoois, ésteres, aldeídos e cetonas de cadeia curta. O perfil terpênico apresenta normalmente substâncias com moléculas de dez e  quinze carbonos (monoterpenos e sesquiterpenos), mas, dependendo do método de extração e da composição da planta, terpenos menos voláteis podem aparecer na composição do óleo essencial. 
Na prática popular, os óleos essenciais possuem uma larga tradição de uso, desde a utilização para acentuar o aroma ou gosto dos alimentos até o uso como agentes medicinais, que é conhecido desde a remota antiguidade.
Há registros pictóricos de seis mil anos atrás, entre os egípcios, de práticas religiosas associadas à cura de males, às unções da realeza, e à busca de bem-estar físico, através dos aromas obtidos de partes específicas de certos vegetais, como resinas, folhas, flores, sementes, etc. O Egito parece ter sido o berço da destilação, com óleos essenciais usados como perfumes. Usavam os óleos no processo de embalsamento dos cadáveres, conheciam bem a cosmetologia e os tratamentos com ervas.  Os sacerdotes fabricavam pomadas e “ungentos” medicinais, tendo grande domínio das técnicas de extração dos compostos vegetais por destilação e infusão a quente, conheciam as propriedades terapêuticas de certas drogas e tinham noções básicas de farmacodinâmica. O óleo essencial de mirra, por exemplo, era usado como anti-inflamatório e as fraturas ósseas eram tratadas com misturas de plantas e óleos. Na tumba de Tutancâmon (1550 – 1295 a. C.) foram encontrados óleos aromáticos de cedro, coentro, mirra, olíbano e zimbro, em aromatizadores, bandagens e envasados em frascos. Cleópatra (69 – 30 a. C.) eternizou a arte da perfumaria sedutora. Usava um perfume especial feito com óleo essencial de flores de henna, açafrão, menta e zimbro.
Fonte: Google Imagens
Há relatos de que os indus na antiguidade já tinham conhecimento dos processos de extração dos óleos essenciais e dos produtos destilados. Provavelmente, faziam extratos alcóolicos e não óleos essenciais puros, empregados tanto como perfume quanto em cerimônias religiosas, além do uso terapêutico.
Os gregos teriam passado seu conhecimento sobre os óleos aromáticos aos romanos, que se tornariam grandes conhecedores de perfumes. Na Babilônia (1500 a. C.), o uso de óleos essenciais, principalmente cedro fazia parte da rotina de cuidados com a saúde. As tabuinhas babilônicas citam 250 ervas e óleos com propriedades medicinais que poderiam ser misturados na forma de cataplasma, infusões, inalações e linimentos.
As substâncias aromáticas também já eram populares nas antigas China e Índia, centenas de anos antes da era cristã, quando eram incorporados em incenso, poções e vários tipos de acessórios, usados diretamente sobre o corpo.
Hipócrates (460 a. C.) tornou-se o primeiro a considerar a massagem com óleos essenciais uma terapia, difundindo-a entre a comunidade científica. Teofrasto (372 – 287 a. C.) pode ser considerado pioneiro em suas pesquisas sobre óleos essenciais e seus efeitos. Entre seus trabalhos está o guia relativo aos odores em que analisa os efeitos distintos dos diversos aromas sobre o pensamento, os sentimentos e a saúde. Mas foi Pedânio Dioscórides (90 – 40 a. C.) que foi realmente inovador organizando o receituário de ervas e óleos medicinais conhecido como Herbário, usado durante os 1500 anos seguintes pelos médicos.
O pioneiro na extração de óleo essencial de rosa por destilação foi Avicena (980 – 1037 d. C.), mas o método levou muitos anos para ser aperfeiçoado. Posteriormente, os doutores árabes e os alquimistas inventaram a serpentina com o objetivo de refrigerar os produtos destilados. Bem mais tarde, no século XV, óleos essenciais eram exportados como fragrâncias da Itália para toda a Europa, visando tanto a cosmética como a terapêutica.

Até os dias de hoje os óleos essenciais se mostram importantes e principalmente foram muito difundidos na produção dos perfumes. O fascínio exercido pelo perfume inspira poetas e artistas e deu origem a um best-seller com mais de 15 milhões de cópias vendidas no mundo todo. A obra do alemão Patrick Süskind, de 1985, narra a história do francês com olfato apuradíssimo, capaz a reconhecer cheiros a quilômetros de distância, ganhou uma versão para o cinema com o filme Perfume – A história de um assassino. Em flashback, o filme conta a história do aprendiz de perfumista Jean-Baptiste Grenouille que estava a ponto de ser guilhotinado, acusado se assassinar várias mulheres.


Autores: Caio César, Fernanda Arab, Loyná Flores e Florença Silvério


Bibliografia utilizada:

terça-feira, 19 de maio de 2015

A importância da mandioca na África

     A Mandioca é uma planta a muito utilizada como alimento pela humanidade. Atualmente é cultivada principalmente na África, Ásia e América Latina. Conhecida no meio acadêmico como Manihot esculenta, a mandioca é uma planta da família Euphorbiaceae, que é amplamente cultivada devido a sua capacidade de ser cultivada em solos pobres, já que, requer relativamente poucos insumos durante o seu crescimento. A mandioca é a segunda cultura com maior produção de alimento energético por área, depois de cana-de-açúcar. 
     Pode ser colhida em qualquer dia do ano e constitui o alimento básico para mais de 700 milhões de pessoas em pelo menos 105 países.
Com uma produção acima de 170 milhões de toneladas, a mandioca constitui uma das principais explorações agrícolas do mundo (Tabela 1). Entre as tuberosas, perde apenas para a batata. Nos trópicos, essa importância aumenta.
     Dentre os continentes, a África (53,32%) é o maior produtor mundial, seguido pela Ásia (28,08%), Américas (18,49%) e Oceania (0,11%). Quanto ao rendimento, medido em toneladas por hectare, destacam-se a Ásia (14,37 t/ha) e as Américas (12,22 t/ha), seguidas pela Oceania (11,57 t/ha) e África (8,46 t/ha) (Tabela 1).


Tabela 1. Área colhida, produção e rendimento da mandioca no mundo, por continente, em 2000.

Continentes
Área Colhida (ha)
Produção (t)
Rendimento (t/ha)
África
10.804.484
91.451.289
8,46
Ásia
3.351.119
48.163.007
14,37
Américas
2.596.719
31.719.755
12,22
Oceania
15.848
183.292
11,57
Mundo
16.768.170
171.517.343
10,23



    Fonte: FAO, 2001

    
A plantação da mandioca é de grande importância para o continente africano, haja vista que é a maior produtora no mundo dessa raiz. A produção é distribuída por vários países, com destaque para a Nigéria e a República Democrática do Congo que, juntos, contribuem com aproximadamente metade da produção do continente.
   Os principais problemas agrícolas da cultura na África são:
a) baixo nível tecnológico;
b) incidência de doenças, principalmente o mosaico africano;
c) ocorrência de pragas, como cochonilha, ácaros, gafanhoto, etc.
     Apesar dos revezes, a mandioca continua sendo uma preferência, já que pode ser mantida no solo durante um período de até dois anos e colhida quando necessária. Contudo, uma vez colhida, a mandioca fresca é altamente perecível, sendo imprópria  para ser vendida em mercados distantes. Há também uma elevada demanda por chips de mandioca, usados como alimentos para animais. Contudo, na média africana, cerca de 90% produção é destinada ao consumo humano e apenas 10% é processada como alimentos para animais.
    
Há algumas variedades amargas que apresentam teor de amido mais elevado, sendo mais adequadas  para a produção de amido de alto valor e maltose, ambos para uso industrial. Na África, as variedades amargas são muitas vezes preferidas pelos agricultores, já que resistem melhor às pragas.
     Em toda a África, as mulheres são as maiores responsáveis pela maior parte da colheita de mandioca e ainda como ajudam no processamento e no transporte. No entanto, como o processamento torna-se cada vez mais mecanizado, os homens tendem a assumir essas atividades.
    As folhas são consumidas como vegetais verdes e as raízes como alimento básico que também é transformada em diversos produtos, tais como gari, chikwangue, cascas, fufu, tapioca, etc. Ultimamente, cresce muito a produção de amido e de HQCF (“Farinha de Mandioca de Alta Qualidade”), principalmente nas pequenas fábricas da Nigéria que apesar de apresentarem um produto de alta qualidade e higiene, ainda produzem muito pouco. Trata-se de uma perfeita substituta para o amido de trigo e de milho, ambos importados, já que é bem mais barata
     Na Nigéria, a Iniciativa Presidencial para a Mandioca, iniciada em 2003, criou um mercado mais amplo para a farinha de mandioca, promovendo o uso de 10% de farinha de mandioca no pão à base de trigo. Isso levou ao aumento de 48% na produção de HQCF e de amido, levou também ao estabelecimento de mais de 500 centros de microprocessamentos e mais de 100 de processamento por pequenas e médias empresas.

Autores: Andersom Rosário Prado, Danilo Sasso Augusto, Gabriel José de Carlo, João Pedro Trevisan dos Santos, Vitor Antonelli Breda



Importância da mandioca no Brasil


      A mandioca é uma raiz que está altamente enraizada na cultura e história do Brasil, e desse modo possui várias origens folclóricas. Uma delas, é em relação à uma pequena india chamada Mani, que subitamente morre e é enterrada dentro de sua oca. Sua tribo, como tradição, chorava sobre sua sepultura diariamente. Deste processo brotou uma planta, cuja raíz era escura por fora e branca por dentro e que os índios interpretaram como um presente do deus Tupã. Batizaram-na de Mani, e como ela havia brotado dentro de uma oca, compos-se “manioca”, conhecida hoje como mandioca.
Mandioca: base alimentar dos índios
http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes
/capadr/audiencias-publicas/audiencias-publicas-2013/audiencia-publica
-16-de-abril-de-2013-embrapa-mandioca

A cultura da mandioca, aipim ou macaxeira tem sua origem provável nas regiões centrais do Brasil e já eram cultivadas pelos indígenas muito antes da colonização, sendo encontrado um registro da sua utilização em uma carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal: “Eles (os indígenas) não comem senão d’outra coisa a não ser dum inhame (mandioca) que brota da terra”.
A mandioca é cultivada em todas as regiões do Brasil, assumindo destacada importância na alimentação humana e animal, além de ser utilizada como matéria-prima em inúmeros produtos industriais. Tem ainda papel importante na geração de emprego e de renda, notadamente nas áreas pobres da Região Nordeste. Considerando-se a fase de produção primária e o processamento de farinha e fécula, estima-se que são gerados, no Brasil, um milhão de empregos diretos. Além disso, avalia-se que a atividade mandioqueira proporcione uma receita bruta anual equivalente a 2,5 bilhões de dólares e uma contribuição tributária de 150 milhões de dólares.
Existe uma certa divisão do sistema de produção de mandioca no Brasil, sendo que dos 60% das plantações com menos de 10 hectares, 76% estão no Norte e Nordeste, correspondendo a pequenas produções, principalmente para farinha, com mão de obra própria, pouca tecnologia e capital, e comercialização local. A produção em maior escala para finalidades industriais, (mais de 50 hectares) localizam-se nas regiões Sul e Sudeste, utilizando mão de obra terceirizada, maior quantidade de insumos, capital e tecnologia, sendo distribuída para uma variedade de mercados.
Alguns fatores dificultam os avanços mais significativos na qualidade e produtividade da produção brasileira. Entre esses, podemos citar: o cultivo em áreas marginais (solo com baixa fertilidade, chuvas insuficientes), a rusticidade da planta induz menor demanda tecnológica, as peculiaridades regionais dificultam os resultados de pesquisas (há uma forte interação genótipo x ambiente), além disso, o investimento em pesquisas é inferior ao aplicado em outros tipos de cultivo.
Mesmo assim, o  Brasil ocupa a segunda posição na produção mundial de mandioca (12,7% do total).
A raiz da mandioca é utilizada para elaborar uma série de produtos amiláceos, farinhas e amidos naturais ou modificados. A fração amilácea extraída proporciona a fécula, de consumo direto em alimentos (biscoitos, bolos, pudins, molhos) ou industrial (alimentos processados, têxteis, papel, tintas, medicamentos). Em uma segunda transformação, pode-se produzir polvilho azedo, do qual se prepara uma série de produtos da culinária, como biscoitos doces e salgados, e o popular pão de queijo.
Além disso, a mandioca produz raspas, farinhas de raspas, pellets e álcool. Ainda podemos citar os produtos regionais (beiju, tapioca, carimã ou massa puba, tucupi e tacacá), que demonstram como a mandioca é importante como base alimentar e como componente da cultura brasileira.


Autores: Carla Kuhl, Elis Regina Mesquita, Isabela Gerdes Gyuricza, José Ikeda Neto e Marcela Oliveira.


Bibliografia utilizada:

terça-feira, 12 de maio de 2015

O Uso da Mandrágora na Idade Média Européia

 Mandrágora nativa florescida.
Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-dZmaEfV7cBc/Tk8ZWOLeYAI/
AAAAAAAAAPQ/miSJCgAuB3g/s1600/
A mandrágora (Mandragora officinarum), nativa do Mediterrâneo, crescida em regiões de orlas e clareiras, é uma planta da família Solanaceae (a mesma do tomate). Possui as seguintes características: herbácea, sem caule, dotada de flores campanuliformes azuis (formato de sino) e frutos babáceos, conhecidos como a “maçã do diabo”, devido ao seu aroma e toxicidade, sendo considerada afrodisíaca pelos árabes. Além dos seus frutos, todas as partes desta planta apresentam uma certa toxicidade e podem ser prejudiciais aos humanos se consumidos de maneira errada. Sua toxicidade se deve a presença de alcalóides tropânicos, como a hiosciamina e hioscina, substâncias responsáveis pela amnésia causada pela ingestão dos frutos dessa solanácea. Apesar de todas as propriedades afrodisíacas, muitas das lendas, crenças e superstições eram devido à raiz bifurcada e retorcida que tinha formato antropomórfico.
Os primeiros registros da mandrágora datam de aproximadamente 2.000 anos, no tempo de Plínio “o Velho”, onde durante as campanhas militares os romanos mascavam pedaços da raiz para se anestesiar ao passar por uma cirurgia; e da bíblia nos capítulos de Gênesis e Cantares, onde é mencionada como suposto afrodisíaco. Posteriormente seu uso se tornou recorrente, pois se acreditava que “sua raiz de aspecto antropomórfico, teria sido inicialmente fabricada com a mesma terra com que Deus modelara Adão, o que teria dado lugar a supremacia dela sobre outros vegetais”. Isso se reflete pela aparição de uso de mandrágora em lendas como a lenda celta de “Tristão e Isolda”, que conta que os dois se apaixonaram ao tomar uma poção feita de mandrágora, meimendro e beladona. Durante o Renascimento ela também é citada por Shakespeare na obra “Romeu e Julieta”, e mais recentemente ela aparece na obra de J. K. Rowling, “Harry Potter e a Câmara Secreta” (1998), que conta parte da lenda que envolve a coleta da planta, e seus poderes curativos difundindo o conhecimento e a lenda sobre a espécie entre os jovens. Retornando a aparecer como fonte de cura no filme de Guillermo Del Toro, “O Labirinto do Fauno” (2006), onde a personagem principal se utiliza de uma raiz de mandrágora para tentar salvar sua mãe doente.

Representação da mandrágora em Harry Potter e a Câmara Secreta.
Fonte: http://2.bp.blogspot.com/-aRyqEn5L1gM/VKsGpXdsPOI/
AAAAAAAAIAQ/cGyLf9BhQhw/s1600/mandragora-harry-potter.jpg
 
Foi durante a Idade Média que o vegetal ficou conhecido e muitas das suas lendas foram criadas. Devido a sua natureza narcótica e principalmente ao aspecto “humano” de sua raiz bifurcada e retorcida, ela era associada à feitiçaria e bruxaria, destinada a curar a loucura e a prática de exorcismos. Nesta época as lendas e superstições envolviam tudo sobre a planta, desde o seu nascimento até a sua colheita. De acordo com as crenças populares, a mandrágora crescia sob patíbulos, aonde caíam sêmens ejaculados por pessoas enforcadas. A pessoa afortunada que possuísse essa raiz em formato antropomórfico se assegurava que a planta teria gritado e matado quem a ouvisse, no momento em que foi arrancada do solo.
Dessa forma, sua colheita nunca era realizada por mãos humanas, pois os gritos agonizantes dessa “planta humana e descendente de um enforcado” eram extremamente perigosos para os ouvintes. Sendo assim, o procedimento de retirada da raiz era composto por diversas regras, a fim de salvaguardar a vida de quem a fosse arrancá-la. Primeiro, cava-se um buraco bem profundo ao redor da raiz, mantendo-a debaixo da terra e quieta, e, por fim, atar uma corda ao redor da raiz e em um pescoço de um cachorro de pelagem negra ou escura. Em seguida, a pessoa se afastava do local e chamava o animal para se aproximar dela, arrancando a raiz, matando o animal enforcado e agonizando com o grito mortal da mandrágora.
Representação da colheita de mandrágora.
Fonte: https://lostemplariosysuepoca.files.wordpress.com/2013/01/mandragoramini.jpg 
Aliado às práticas de cura que surgiram durante a Idade Média, o uso de plantas consideradas mágicas continuava sendo constante, tendo a elas sendo atribuídas poderes curativos. Ás raízes era atribuída uma especial importância, a elas atribuía-se um poder curativo devido ao seu estado “intermediário entre os elementos, como entre o vivo e o morto”. Porém, quando consumidos em altas doses levam a estimulação seguida de depressão, em doses baixas diminuem a secreção de saliva, brônquica e a sudorese. Variando-se a dose pode-se obter alucinações percebidas como reais, amnésia durante a intoxicação, perda dos sentidose sono profundo.

Raiz de mandrágora.

Fonte: https://teufelskunst.files.wordpress.com/2012/05/img_0701.jpg
 
Juntamente a outras duas solanáceas, a beladona e o meimendro, era muito associado à bruxaria e à feitiçaria pois permitiam realizar profecias e adivinhações. Também eram feitos unguentos com os quais poderiam obter o poder de voar. Conhecido como a “fórmula do voo”, era passado em algumas regiões do corpo e esfregado sobre alguns materiais que posteriormente eram colocados em contato com certas áreas do corpo, por exemplo, como um cabo de vassoura que recebia o esfregaço e era posicionado entre as pernas da “bruxa”, e ao entrar em contato direto com a mucosa vaginal o unguento era absorvido pelo organismo mais rapidamente. Por ser ingrediente de muitos feitiços e sempre estar envolta em mistérios e lendas a mandrágora era muito valorizada, chegando a ser podada para ter um formato mais humano e ter seu valor aumentado, pois quanto mais humana parecia maior poder lhe era atribuído.


Autoras: Ana Laura Furlan Blanco e Aline Campelo Mendes

Bibliografia utilizada:
  •  ANDRÉ, B.A.G. O Arsenal Farmacêutico da Antiguidade Clássica e da Idade Média. 2013. 135f. Tese (Mestrado em Ciências Farmacêuticas – Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade Fernando Pessoa, Porto. 2013. 
  •   MARTINEZ, S.T.; ALMEIDA, M.R.; PINTO, A.C. Alucinógenos naturais: um vôo da Europa Medieval ao Brasil. Química Nova, v.32, p 2501-2507, 2009.
  •   LIMA, J. (2010). Plantas e Dor. Contributo para o Estudo Etnoantropológico do Tratamento da Dor. Almada.
  •   LUENGO, M.B. Uma revisão histórica dos principais acontecimentos da imunologia e farmacologoia na busca do entendimento e tratamento das doenças inflamatórias. Revista Eletrônica de Farmácia, v.2, p 64-72, 2005.
  •   PEREIRA, M.M.D. Plantas medicinais e aromáticas das boticas conventuais da Universidade de Évora. In: Convento dos Nossa Senhora dos remédios e a Ordem do Carmo em Portugal e no Brasil, 1, 2013. Évora. Resumos... Évora: Universidade de Évora, 2013, p.1.
  •   PINHEIRO, M.E. Ciência e Magia na Idade Média: Fusão ou Dicotomia? Revista Labirinto, v.20. p.138-148, 2014.
  •   ÁVILA, V.; ARNAU, E. La botica Del monasteiro. La Medicina medieval actualizada. TikalEdiciones, Barcelona. 1999

Medicina popular: benefícios e precauções

O uso e o conhecimento de plantas como medicamentos é uma atividade muito antiga, antecedendo a história humana escrita, e simboliza, em muitos casos, o único recurso terapêutico de muitas comunidades e grupos étnicos atuais. Ao lado da domesticação e da agricultura, ocorreu a descoberta dos benefícios terapêuticos de algumas plantas, sendo que muitas das ervas e temperos usados ​​na alimentação, também são usados como compostos medicinais contra patógenos e infecções. Ao longo da história, observa-se o conhecimento progressivamente adquirido em relação às dosagens específicas para cada droga e ampliação da fabricação e administração dos remédios.
As angiospermas ainda são a fonte da maioria das plantas medicinais. Muitas das ervas daninhas comumente encontradas, como a urtiga e o dente-de-leão, apresentam propriedades medicinais. Pelo menos 12.000 compostos foram isolados até hoje, número estimado em menos de 10% do total. De acordo com a legislação brasileira, as plantas medicinais podem ser comercializadas em farmácias e herbanários, sendo que quando são processadas industrialmente, tornam-se fitoterápicos. Esse processo industrial, teoricamente, evita contaminações e padroniza a quantidade e a forma de utilização das plantas.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) cerca de 80% da população mundial fez uso de algum tipo de erva no intuito de aliviar alguma sintomatologia dolorosa ou desagradável. Dessa porcentagem, 30% ocorreu por recomendação médica. No caso do Brasil, as principais plantas da medicina popular são as popularmente conhecidas como arruda, alecrim, babosa, bardana, boldo, catinga-de-mulata, capim-limão, carqueja, cavalinha e quebra-pedra.
Plantas medicinais comumente usadas. 
Disponível em: < http://mundoestranho.abril.com.br/materia/quais-sao-as-plantas-medicinais-mais-utilizadas>.
Dessa forma, “medicina popular” se refere ao uso de plantas para o tratamento de doenças e infecções, bem como na prevenção e redução dos efeitos dessas. Mesmo não sendo um termo usado com frequência, você provavelmente já se deparou com alguns de seus exemplares. É muito comum que, quando alguém está com dor no fígado ou estômago, escute a recomendação para “tomar” chá de boldo. Além do mais, é normal ouvir que plantas naturais fazem muito bem a saúde, e que podem ser utilizadas na cura de inúmeras doenças. Certo? Nem sempre! Primeiramente, é importante ressaltar que muitos compostos utilizados para a fabricação de medicamentos são retirados de plantas. Entretanto, embora haja uma generalização desse conceito, existe uma variedade de plantas medicinais que, dentre outras propriedades prejudiciais ao organismo humano, são providas de alto teor de toxicidade. Dessa forma, é importante buscar informações com profissionais da saúde e ter um cuidado maior quando gestantes, lactantes, crianças e idosos forem utilizar esses produtos.
Outro aspecto resultante da defasagem desse conceito é subestimar as propriedades medicinais das plantas, fazendo uso delas de forma aleatória. Assim, é importante salientar que substâncias alimentícias, tóxicas e medicamentosas diferem apenas em relação à dose, a via de administração e a finalidade com que são empregadas. O chá de boldo, por exemplo, em pequenas doses pode aliviar dores no fígado e do aparelho digestório, porém, em grandes quantias, pode atuar como um poderoso analgésico capaz de mascarar sintomas de uma enfermidade grave, podendo causar irritação gástrica e até abortos (FRANÇA et. al, 2008).
Além disso, uma dúvida que fica é: como fazer para usar as plantas corretas? Ou seja, como identificá-las corretamente para evitar possíveis toxinas? No caso do “boldo” trata-se de uma espécie, um grupo ou só de plantas parecidas? No Brasil, há três espécies de “boldo”: boldo do Chile (Peumus boldus), falso boldo (Plectranthus barbatus) e boldo baiano (Vernonia condensata). As duas primeiras espécies podem causar efeitos colaterais em humanos, trazendo a tona outro problema: um mesmo nome popular pode incluir várias espécies botânicas, ou uma mesma espécie pode apresentar várias denominações populares. Sendo assim, é muito importante verificar qual espécie de planta está sendo usada (MAURO et. al, 2008).


Chá de boldo: produto bastante utilizado na medicina popular,
 principalmente contra problemas do trato digestivo.

Disponível em: <
http://www.bolsademulher.com/sites/
www.bolsademulher.com/files/medicina-alternativa/beneficios-cha-de-boldo1.jpg>.
Por ultimo, mas não menos importante, as plantas medicinais podem reagir com medicações alopáticas e prejudicar a saúde do individuo. Por exemplo, por serem produtos xenobióticos, isto é, substâncias estranhas ao sistema biológico, os fitoterápicos empregados no período pré-operatório podem afetar o ato anestésico ao interagir com os agentes anestésicos.
Dessa maneira, é essencial o acesso seguro e o uso racional de plantas medicinais. Para isso, é preciso ter as informações necessárias sobre o uso, a origem, a identificação e o modo de preparo correto dessas plantas. Assim, órgãos, como a Sociedade brasileira de Plantas Medicinais, têm como objetivos possibilitar, facilitar e estimular o aprimoramento científico e tecnológico na área de Plantas Medicinais nativas ou cultivadas. Nada impede um indivíduo de utilizar folhas que tenha no quintal de casa e fazer um chá para aliviar certos sintomas. Todavia, com a grande diversidade vegetal e cultural do Brasil, alguns cuidados devem ser tomados, sendo que a regulamentação e os incentivos à pesquisa podem abrir diversos caminhos neste vasto território, de modo a propiciar que a população faça uso desses recursos naturais com maior eficácia e segurança.

  

Autores: Marino da Motta Nanzer, Rafael Farina, Silvia Sayuri Mandai e Vanessa Thomé.


  
Bibliografia utilizada: